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A eco-cidade de Masdar: uma utopia ecológica


Em 2008 o homem tornou-se um animal urbano. Pela primeira vez, mais da metade da população do mundo vive em cidades, totalizando 3,3 bilhões de pessoas. Esse número vai aumentar para 5 bilhões em 2030, prevê a ONU, impondo uma pressão colossal ao meio ambiente. As cidades de hoje têm sede, fome de energia, e produzem a maior parte do lixo e dos gases de efeito estufa do mundo.

Poderá um novo modelo de crescimento urbano emergir das areias do deserto da Arábia?

Em 2008, os construtores lançaram a “primeira cidade do mundo com neutralidade na emissão de carbono”: Masdar, uma cidade no emirado de Abu-Dhabi, no golfo Pérsico.

Segundo o governo local, Masdar irá produzir zero emissão de dióxido de carbono, nenhum lixo, e será abastecida com energia renovável – uma cidade moderna com um consumo de energia per capita nove vezes inferior ao que se tem nos Estados Unidos. Os planejadores a concebem como um núcleo para o desenvolvimento de tecnologia ‘verde’ – o próprio nome Masdar significa “a fonte”, na língua árabe.

As intenções são boas. Mas será que Masdar não será mais uma miragem? O poderio financeiro dos países produtores de petróleo é um argumento que pesa a favor. Masdar também conta com o apoio de pesos-pesados do mundo acadêmico, como o MIT (Massachussetts Institute of Tecnhnoly) e o Instituto de Pesquisa e Tecnologia de Tóquio.

Paraíso dos pedestres

No entanto, Masdar não se destina aos que sonham com um futuro low-tech. Prevista para abrigar 40 mil moradores e 50 mil visitantes de passagem, a cidade não terá automóveis, mas não será necessariamente apinhada de bicicletas e pedestres. Um sistema de trânsito rápido individual – mini-vagões sobre trilhos – oferecerá uma mobilidade comparável a andar num vagão de metrô particular. As mercadorias serão transportadas de modo similar. Os visitantes poderão ir a Masdar usando o já previsto sistema de transporte ferroviário leve (LRT) de Abu-Dhabi, ou do jeito antigo, isto é, de carro.

Construir uma cidade ecológica no deserto não soa muito encorajador. Porém, os planejadores de Masdar querem aproveitar a localização em benefício das cidades. Itens da arquitetura árabe tradicional, como os muros em volta das cidades, podem ajudar a isolar o vento quente do deserto, enquanto as ruas estreitas e cobertas oferecem sombra e canalizam a brisa refrescante.

Com o acréscimo de instalações de água e vegetação nativa, as temperaturas poderão ser baixadas e mantidas a constantes 20 graus Celsius, reduzindo assim a necessidade de energia para aquecimento ou refrigeração.

As edificações de Masdar são projetadas para usar apenas 20% da energia das estruturas convencionais, excedendo até mesmo os atuais padrões mais elevados de referência em eficiência energética.

A energia solar, recurso abundante no deserto da Arábia, deverá suprir a maior parte da eletricidade. Metade das necessidades da cidade, cerca de 100 megawatts de energia fotovoltaica (PV), virá dos painéis solares fotovoltaicos. Uma cidade de tamanho similar e com um projeto convencional, exigiria 800 megawatts de capacidade instalada, dizem os planejadores de Masdar.

Outras fontes de energia incluem usinas geotérmicas, turbinas eólicas e incineradores de resíduos orgânicos. Um quinto do abastecimento de energia ainda não foi definido, contando com a suposição otimista de que formas melhores para a geração de energia renovável possam surgir até 2016.

Numa cidade alimentada por energia solar, o que acontece à noite? Masdar precisará importar energia termelétrica da rede elétrica local para manter suas luzes acesas, até que apareça um modo melhor de armazenar eletricidade. Os planejadores pretendem compensar esse uso de combustível fóssil exportando de volta para a rede elétrica o excedente da energia solar gerada durante o dia.

Água será o recurso mais escasso da cidade. A água doce será fornecida por uma usina de dessalinização movida a painéis solares fotovoltaicos. Coletores de orvalho e captação de água das chuvas complementarão o abastecimento. A água para irrigar plantações e jardins, equivalente a 60% das necessidades da cidade, deverá ser obtida a partir da reciclagem de águas servidas. Por fim, apenas 2% dos resíduos gerados em Masdar serão destinados a um aterro.

 Um deserto verdejante?

Não admira que haja muitas perguntas ainda sem resposta. De onde virão os alimentos para Masdar? O excedente de energia solar irá de fato compensar a importação de eletricidade à noite? Será mesmo sustentável colocar mais gente morando num ambiente desértico?

Dizem os críticos que o único modo de garantir que Masdar atinja a meta da neutralidade em emissão de carbono é não construir a cidade. Os 15 bilhões de dólares do investimento inicial, dizem eles, seriam melhor empregados  aumentando as áreas verdes de Abu-Dhabi, que apresenta uma das piores pegadas de carbono no mundo. Entretanto, não faltam projetos com intensa emissão de carbono: Abu-Dhabi está construindo a maior fundição de alumínio do mundo, uma pista de corrida de Fórmula 1 e uma pista coberta de esqui.

Na pior hipótese, Masdar servirá como uma fulgurante distração à atividade politicamente embaraçosa de reformular a infraestrutura, os negócios e estilos de vida existentes. Na melhor, a cidade será um caldeirão de concepções e tecnologias urbanas ecológicas, diz o urbanista Richard Plunz, diretor do laboratório de Design Urbano, do Earth Institute.

Mais do que locais projetados para substituir a infraestrutura urbana existente, eco-cidades como essa são modelos de estudo, afirma Plunz. “Elas são laboratórios”.

Com o aperto no crédito se agravando em toda parte, a região do golfo Pérsico é um dos poucos lugares onde ainda há fundos disponíveis para a pesquisa futurista. Uma nova utopia pode ser justamente o elemento que faltava em um mundo confrontado com más notícias sobre o declínio econômico e a mudança climática - ainda que seja construído na areia.


Fonte: www.knowledge.allianz.com.br