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Com muitos temas e divergências, qual o objetivo do G20?

“O G20 precisa mostrar que está junto”, escreveu a chanceler alemã, Angela Merkel, na carta de apresentação desta edição do encontro. Apesar das altas expectativas, a verdade é que a reunião não é capaz de, em um passe de mágica, solucionar os problemas do mundo em 48 horas.

Antes mesmo da chegada a Hamburgo, cada líder já tinha uma pauta a trazer: Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, clamou por atenção à situação dos refugiados; a chanceler alemã, Angela Merkel, e o grupo dos europeus querem que Trump volte atrás em sua participação no acordo climático de Paris.

Até mesmo o Papa Francisco se manifestou ao pedir ao G20 que dê prioridade aos pobres. O ano de 2017 também trouxe novas tensões com a Coreia do Norte, desavenças entre Estados Unidos e aliados sobre orçamento de segurança, o embate americano com a Rússia e a preocupação com o isolacionismo dos Estados Unidos sob o comando de Trump.

Até a Venezuela entrou na roda, após o presidente argentino, Mauricio Macri, discursar em Hamburgo na sexta-feira, 7, pedindo que o G20 condene a situação de ataque aos direitos humanos e à democracia no governo do presidente Nicolás Maduro.

Para os líderes mundiais, a lista de temas é longa. Mas no G20 — sigla para “Grupo dos 20”, por reunir as 19 maiores economias do mundo mais a União Europeia — , que se classifica como “fórum informal” e sem poder para deliberar medidas legais, o principal mérito é o diálogo, mesmo que sem decisões muito concretas.

Por isso, Merkel está certa: o objetivo da reunião de cúpula deste fim de semana é, simplesmente, reunir.

“É preciso estabelecer ligações pessoais entre os líderes para que eles possam começar a discutir esses temas. Pode-se não chegar a uma grande conclusão, mas é fundamental que haja esse encontro institucionalizado”, afirma Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da FGV.

O G20 existe desde 1999, mas seu estrelato só começou após a crise de 2008, quando o papel dos emergentes no quebra-cabeça geopolítico ganhou importância. Desde então, o grupo foi repaginado e as reuniões, antes só com ministros, passaram a incluir os chefes de Estado.

“É como se você pudesse ver essa cúpula em duas dimensões: o G20 como diálogo político e de temas econômicos, como comércio e sustentabilidade, e as discussões paralelas, sobre Coreia do Norte, refugiados, migrações, Trump, tudo isso”, diz Alcides Cunha Costa Vaz, pesquisador em Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB).
O palco dos emergentes

A reestruturação do G20 está muito ligada à ascensão dos países emergentes, que seguraram a economia mundial enquanto as potências europeias e os Estados Unidos afundavam em 2008. Hoje, o grupo é composto por Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, China, França, Alemanha, Índia, Indonésia, Itália, Japão, México, Rússia, Arábia Saudita, África do Sul, Coreia do Sul, Turquia, Reino Unido e Estados Unidos, além dos países da União Europeia.

Assim, o G20, aos poucos, tomou o lugar do antigo G8 (que reunia europeus, Estados Unidos e Rússia) como principal fórum de discussão econômica do mundo. Muita coisa mudou de 2008 para cá, e embora a economia das potências europeias e dos Estados Unidos continue se recuperando, a importância do G20 não diminuiu. Os encontros do G7 (o G8 sem a Rússia) ainda acontecem, mas não se pode mais excluir os emergentes da conversa.

A China, por exemplo, pode ser classificada como uma das grandes estrelas do encontro de 2017: com o isolacionismo comercial e político dos Estados Unidos e as desavenças do presidente americano com os antigos aliados europeus, os chineses têm o caminho aberto para se aproximarem da Europa e dominarem ainda mais os outros mercados emergentes.

No time dos emergentes, outro destaque é a Índia, que cresceu mais de 6% ao ano nos últimos cinco anos e já é o país com maior crescimento da década. Além disso, com cerca de 1,3 bilhão de habitantes, a Índia caminha para ultrapassar a população de 1,4 bilhão da China e se tornar o país mais populoso do mundo em 2020.

Portanto, os holofotes seguem apontados para os emergentes dos Brics (grupo que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). A reunião do G20 acontece meses antes da cúpula dos Brics, em em setembro. Mas ao contrário de chineses e indianos, países como Brasil e Rússia vêm apresentando crescimento fraco nos últimos anos e ficam apagados no cenário econômico mundial — sem contar os infinitos problemas políticos, no caso brasileiro, embora o presidente brasileiro, Michel Temer, tenha dito que “não existe crise econômica” no Brasil.

“É preciso diferenciar os atores, porque os Brics não são uma coisa só”, explica Stuenkel, da FGV. “A diferença entre emergentes e potências está diminuindo muito rapidamente. Brasil e Rússia estão mal, mas países como China e Índia têm hoje muito mais poderio que em 2008”. Para o pesquisador, a reunião de 2017 é o cenário perfeito para as aspirações mundiais na China. “A China ganhará muito espaço, sobretudo na Europa”, diz.
Trump contra o mundo

Para os especialistas ouvidos por Exame Hoje, é difícil que as pressões mundiais façam Donald Trump mudar de ideia quanto a sua participação no Acordo de Paris — embora esse tenha sido um dos temas mais invocados pelos europeus nas semanas anteriores à reunião.

Por outro lado, a pressão externa pode, por exemplo, reforçar a posição mundial em temas como a abertura comercial. Organizações como o Fundo Monetário Internacional (FMI), a Organização Mundial do Comércio (OMC) e o Banco Mundial — que participam da da cúpula do G20 — pediram nesta semana “ações decisivas” dos líderes do grupo.

“O bem-estar econômico de bilhões de pessoas depende do comércio”, disseram em nota, num claro recado ao presidente americano.

Trump pode até não mudar de ideia em suas posições, mas terá de assistir aos antigos aliados se mexerem sem sua presença. Após os Estados Unidos se retirarem do Acordo Transpacífico (o TPP) e praticamente acabarem com o tratado — que reunia 12 países e 40% do PIB global numa gigantesca zona comercial —, Europa e Japão usaram os dias anteriores ao G20 e as conversas em Hamburgo para alavancarem seu próprio acordo de livre-comércio, que deve ser aperfeiçoado nas próximas semanas.

Os encontros bilaterais, inclusive, são tão importantes quanto a pauta oficial, e não só japoneses e europeus aproveitaram a oportunidade: Trump e o presidente russo, Vladimir Putin, escolheram a estadia em Hamburgo para se reunirem pela primeira vez, nesta sexta-feira 7.

O presidente americano também se reuniu com o mandatário da China, Xi Jinping, a primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May, e a chanceler alemã, Angela Merkel — com quem vem trocando farpas nos últimos meses. “Há mais foco no que acontece paralelamente nos encontros do Trump do que na agenda oficial em si”, diz Alcides Vaz, da UnB.

Para o economista e cientista político Marcos Troyjo, especialista em relações internacionais e co-diretor do BRICLab na Universidade Columbia, uma reunião como a de Trump e Putin jamais teria acontecido em outras circunstâncias.

“O G20 serve para reuniões bilaterais sem necessariamente ter a pompa e a visibilidade que uma visita de Estado tem. Se você pensa em EUA-Rússia, é impossível imaginar uma visita de Putin a Washington neste momento, porque dadas as tensões, poderia ser visto como sinal de fraqueza de alguma das partes”, afirma.

Assim, as reuniões de bastidores podem ser uma saída para a falta de celeridade nas discussões em um encontro multilateral como o G20 — mesma falta de celeridade que atinge outros fóruns e organizações mundiais, como a própria Organização das Nações Unidas (ONU).

Um exemplo foi a COP21, conferência sobre o clima na qual dezenas de países assinaram o Acordo de Paris, somente após mais de uma década de discussão sobre as questões ambientais. Tudo para, meses depois, o tratado ser novamente desmantelado por decisão de Trump.

Mas, para Vaz, da UnB, isso é uma característica que reflete justamente as divergências no mundo. “O fruto do G20 são declarações, e não um consenso”, diz o professor.

Na reunião 2017 do G20, entre tantas vozes distintas, a aversão a Trump acaba sendo um dos poucos pontos comuns. “Talvez, hoje, o único consenso quase geral seja justamente a defesa do clima e as preocupações com a defesa da abertura comercial”, afirma.

No fim, o G20 pode não salvar o mundo, mas segue sendo um fórum importante. “Apesar de todas as tensões e dificuldades pelas quais a ordem internacional passa, a gente ainda não julga provável um grande conflito entre dois países hoje”, completa Troyjo.

“Sem o G20 e essas organizações de diálogo internacional, corre-se o risco de não ter comunicação. E já vimos na história o que pode acontecer.”


Fonte:

Carol Oliveira
Exame
07/07/2017