Parcerias

Curtir no Facebook

.

.

Pesquise no Site

Boletim Sustentável

Preencha seu e-mail abaixo para receber nossa newsletter:

.

.

No Rio, apenas 1,9% do lixo é reciclado

Dados inéditos obtidos pelo GLOBO com companhias públicas de limpeza mostram que as maiores cidades brasileiras estão engatinhando na reciclagem de seu lixo, apesar de todas terem metas para crescimento nos próximos anos. No Rio, apenas 1,9% de todo o lixo produzido na cidade é destinado à reciclagem; em São Paulo, a proporção é de 2,5%. No Distrito Federal, que tem Brasília, a terceira maior cidade brasileira segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 5,9% do lixo total passam pela coleta seletiva. Estudos mostram que uma cidade tem, em média, de 30% a 40% de seus resíduos com potencial para a reciclagem.

Há ainda outro indicador de que o ciclo não está funcionando a todo vapor: a ociosidade nas centrais de triagem (CTs), locais normalmente conduzidos por cooperativas onde, de fato, a reciclagem acontece. No Rio, as duas centrais de triagem que recebem resíduos — além de outras 24 cooperativas, cujos dados, porém, não são centralizados pela prefeitura — processaram em janeiro cerca de 25% do volume que têm capacidade para reciclar.

A CT de Bangu pode reciclar 30 toneladas por dia, mas recebeu 5,67 toneladas diárias em janeiro, volume abaixo da média dos últimos seis meses, de 6,16 toneladas. Já a CT de Irajá tem capacidade para reciclar 20 toneladas, mas recebeu apenas 6,29 toneladas em janeiro — também abaixo da média para o semestre, de 6,59 toneladas. A estrutura de ambas CTs foi construída com financiamento que contou com verbas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Segundo a Companhia Municipal de Limpeza Urbana (Comlurb), a reciclagem chega hoje a 113 dos 160 bairros do Rio de Janeiro, através da coleta seletiva porta-a-porta, em dias alternados da coleta domiciliar. Para tal coleta, são mobilizados 13 caminhões — que tiveram suas rotas alteradas, segundo a Comlurb, para otimizar a coleta e fazer frente à ociosidade decorrente do pouco material disponibilizado pela população.

REDUÇÃO DO NÚMERO DE CAMINHÕES


Presidente da cooperativa Coopfuturo, que opera na CT de Irajá, Evelin de Brito atribui a ociosidade também a uma diminuição no número de caminhões destinados à coleta seletiva. A Comlurb reconheceu que houve uma diminuição em 2017, sem no entanto especificar números. “Houve uma pequena redução da frota sem perda no sistema de coleta, pois os roteiros foram otimizados para que os caminhões façam a cobertura total até completar a carga”, afirmou a companhia em nota.

Evelin conta que a ociosidade nas cooperativas da cidade já fez com que funcionários tenham sido mandados embora.

— Isto é triste para toda a sociedade. O catador resolve um problema social e ambiental — lamenta ela.

Ana Carla Miscaldo, da Cooper Ideal, também sente o impacto da queda de volume de material para reciclar.

— Nem o carnaval ajudou. Em vários dias, peço para os cooperativados ficarem em casa, pois não tem trabalho.

Coordenador de coleta seletiva da Comlurb, Fabiano Araujo garante que o município está fazendo a sua parte na estrutura disponibilizada para a coleta seletiva e na divulgação do serviço.

— Não é por falta de conversa: a informação chega, mas é difícil mudar a cultura da população. A partir do momento que a população aumentar a oferta de resíduo, aumento o número de caminhões, viagens e locais de transbordo — diz Araujo.

Em São Paulo, dados da Autoridade Municipal de Limpeza Urbana (Amlurb) mostram também que, em cada uma das duas Centrais Mecanizadas de Triagem (CMT) da cidade, apenas 180 toneladas de resíduos são recicladas por dia, enquanto a capacidade é de 250 toneladas. Hoje, todos os 96 distritos de São Paulo são atendidos pela coleta seletiva — mas apenas 51% deles têm cobertura total. Além das CMTs, a cidade conta com outras 41 cooperativas que reciclam resíduos. A Amlurb afirma que o objetivo da prefeitura é universalizar a coleta seletiva nos próximos anos.

Já no Distrito Federal, um programa que tentou universalizar a reciclagem para todas suas 31 cidades em 2014 acabou regredindo pelo abandono de de três das quatro empresas contratadas para fazer a coleta seletiva. Segundo Kátia Campos, diretora-presidente do Serviço de Limpeza Urbana (SLU), o abandono aconteceu pois o contrato previa pagamento sobre o peso coletado — e a quantidade de resíduos disponibilizados ficou muito aquém do que o estimado em contrato.

— O caminhão rodava, era para coletar dez toneladas, e tinha apenas três. A não adesão da população foi um prejuízo muito grande — conta Kátia.

REFLEXOS DA CRISE

Hoje, apenas 14 cidades do DF são atendidas pela coleta, mas em outubro, a SLU pretende universalizar o serviço novamente. Por enquanto, quatro cooperativas contratadas pelo órgão para fazer a coleta e a reciclagem estão recebendo cerca de 24% de sua capacidade.

— O consumo diminuiu com a crise e o enorme desemprego, e o número de catadores avulsos aumentou muito. Em todos os lugares onde temos reciclagem, há catadores avulsos que chegam antes e tiram o filé mignon. O material triado pela SLU, por exemplo, quase não tem alumínio, o lixo está sumindo da rua. O esforço do poder público para implantar a coleta seletiva não representa em hipótese alguma o que está acontecendo na cidade — afirma Kátia.

André Vilhena, diretor executivo do Compromisso Empresarial para a Reciclagem (Cempre), concorda que o mercado paralelo de catadores e sucateiros acaba passando por fora dos números e processos oficiais — mas diz que estes são complementares.

— Existe espaço para os dois sistemas, e as prefeituras podem ajudar inclusive a formalizar estes outros canais — acredita.

Vilhena destaca que a ociosidade dos sistemas oficiais indica um planejamento falho, que contempla mais o processamento do material do que a mobilização para a coleta:

Publicidade

— É preciso planejar a expansão da coleta seletiva para que o volume de material coletado aumente também.

Fernanda Cubiaco, do Movimento Lixo Zero, atribui boa parte dessa ociosidade dos sistemas de reciclagem à falta de mobilização das populações, mas defende que as campanhas de conscientização podem melhorar.

— Precisamos entender que o lixo pode ter valor agregado, mas tem também o valor intangível da reciclagem: o zelo com a natureza, que evita a extração de matéria-prima e a contaminação do solo e das águas com os resíduos — afirma.

Fonte:

Mariana Alvim
Jornal O Globo
05/2017